Ainda sobre Love Fair, agradecimento ao Fringe.

Os desenhos de Love Fair contam com certa dose de acaso. São encontros entre partituras corporais heterogêneas, extraídas e absorvidas (recontextualizadas) a partir do Cinema Silencioso. Há aleatoreidade nos gestos, que portam sentido apenas quando em certo contexto de relações com os corações de carne.

A presença deste elemento é marcante e estabelece a cena como performativa. Junto à vulnerabilidade da lida com o real da carne, folhas secas inspiradas nos cenários de Pina Bausch. A presença da natureza porta em potencia a propriedade da putrefação, retirada do seu contexto para servir a uma estética (pode-se dizer aos olhos) quando se flagra relações com um humano circunscrito pelo tema da paixão.

Falas banais, comuns, de fácil identificação e sem ambiguidade, como "você me deixou", em bocas cenicamente enlaçadas e corpos carregados de afeto. A aparência sóbria (estão bem vestidos) destaca cada gota, veia, lágrima. O sangue nas têmporas não é mero detalhe.

Agradecemos a oportunidade de nos apresentar no FRINGE, esta imensa feira de trocas e olhares, experiências e afetos. Mesmo nas condições precárias da viagem, com o stress da falta de tempo e as dificuldades da lida com a produção, foi maravilhoso. Agradecemos ao Festival, aos parceiros, a todos aqueles que conosco se solidarizaram.

Que tenha vida longa Love Fair, um espetáculo que nasce de um processo de formação, passa a repertório da Cia Poéticas e ganha corpo, mundo, olhos, ganha voz.

Nosso slogan é "dar voz ao jovem para falar de afetos". Esta voz é necessária. E se fala bem mais no conjunto da obra, mais do que os textos dizem, do que pensamos que dizemos. Que uma voz inaudita surja destes encontros casuais, dos seus vãos, dos seus espaços abertos.

Rejane Arruda.

Fotografia: Walter Thoms. Festival Nacional de Teatro de Curitiba/Mostra FRINGE 2018.







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