Estética, Debate e Estatística na Reestreia de Paraíso (ou) Ontem foi um dia especial para a Cia Poéticas
Foto: Lindalva Guedes
Após a reestreia de Paraíso no dia 17 de agosto, no Teatro Municipal Vila Velha, o publico se engajou no debate sobre aceitação das diferenças, causas LGBTs, feminicídio, preconceito e segregação. Falamos de como é difícil mudar a cultura, os hábitos, os condicionamentos sociais e que estamos em um momento de luta. Os dados estatísticos alarmantes, utilizados no espetáculo, são um testemunho desta urgência.
A relação com a realidade no espetáculo pode ser também problematizada a partir do uso dos testemunhos: as atrizes assumem a voz de prostitutas reais, com as suas histórias de vida, relação com a violência, conflitos, personalidade. A prostituição de universitárias é evidenciada. Meninas se prostituem para pagar os estudos e conquistar poder aquisitivo maior do que teriam em outras atividades. Muitas afirmam gostar desta vida, apesar dos riscos; muitas se apoiam no consumo de drogas para suporta-la; muitas vieram do interior e sentem-se acolhidas no universo da prostituição, estabelecendo laços com colegas e cafetinas, fazendo amigas, namoradas.
O espetáculo, no entanto, não esgota o tema ou defende uma tese, pois não se trata de um discurso acadêmico. Devemos nos perguntar o que difere o discurso artístico e como a relação com a realidade pode ser inserida neste caso. Em Paraíso há espaço para a fantasia. Mesmo utilizando testemunhos, trata-se de um recorte e do uso deste material em função do imaginário das atrizes sobre o ser prostituta. Outras linguagens seriam muito mais eficientes, como o documentário cinematográfico, se o objetivo fosse o compromisso com o real. Mas qual o direito de "brincar"? Como os artistas se autorizam? Quando a cena se estabelece como citação? Quando se estabelece como fantasia? Quando se estabelece como documento?
No começo do espetáculo, o teatro é transformado em uma rave e o publico recebe o impacto do "real". Uma imbricação do espaço ficcional e real, pois os atores estão vivamente na plateia experienciando situações de uma casa de shows em função da cafetinagem. Um catálogo é exposto em uma tela de projeção, com fotos das garotas. Uma mulher, a gerente da rave Paraíso, aborda o publico perguntando as suas fantasias. A plateia prontamente fala. É muito interessante como vivamente entram no jogo. A rave se transforma em algo estranho quando aquelas mesmas moças, mascaradas, invadem o palco, dançando de forma estranha. A frontalidade exacerba a vitrine agora onírica, pois o grotesco diz mais dos pesadelos. Como se a realidade pudesse, a qualquer momento, transfigurar-se em algo estranho e assustador, apesar de hipnótico.
A linguagem cinematográfica é referência na operação de trocas de cena: corte seco e fusão. A fusão se dá depois de uma cena realista, onde a luz de serviço é aberta para a encenação de uma batida policial. Durante a briga entre uma mãe e uma filha "resgatada" na rave, o cenário é trocado enquanto uma moça mascarada fala no microfone repetidas vezes "Eu te odeio". Há algo de heterogêneo entre: a troca de cenário, a briga (realista) entre mãe e filha (discussão facilmente identificável com o real) e a figura mascarada no microfone. Estes fragmentos se compõe até que, finalizando a fusão, instantaneamente, surge o cenário de uma delegacia, uma a uma das putas oferecendo a sua história no microfone, frontalmente situado para a plateia.
Recursos da montagem cinematográfica são explorados pelo viés do flash-back, utilizado quando um pai conta à filha como foi o seu casamento. A cena é exibida aos olhos da menina de forma estilizada, com movimentos em coro e a tipificação de personagens, citações, ironias, crítica, dialogo com elementos da mídia. A menina é mantida em um foco separado, privilegiando a exposição de dois tempo-espaços diferentes - recurso de que Brecht se utilizava e que o Teatro Contemporâneo parece potencializar. Um procedimento reconhecível, que organiza os fragmentos dentro de uma lógica da memória.
Já na cena seguinte, espaços diferentes, sem recortes de luz que os diferenciem: um homem entoa canções ligadas aos escravos e temas históricos; uma mulher faz exercícios de balé; outra lê jornal na privada; um jovem se dedica a selfs solitárias; um grupo está no bar; uma dupla se maquia; outra lê a Bíblia. Não se prima mais pela lógica da memória, nem mesmo da fantasia. Uma colcha de fragmentos justapostos é exibida sem costura narrativa, que volta a funcionar apenas com a entrada de uma mulher em desespero por estar sendo encurralada pelo parceiro ou outra instância masculina de opressão, que não fica clara. Esta mulher percorre o palco, recortando o universo multifacetado e caótico e o organizando quando os personagens se voltam para ajudá-la - ou renegá-la, virando as costas.
Paraíso investiga modalidades de composições com os fragmentos, mesclando realidade e alucinação, fantasia, desejo e dados estatísticos. A estética deixa um lugar do não-dito; fantasia, memória, pesadelo e realidade se embaralham. Neste cenário, é a estatística que se porta como lugar seguro, do que existe e pode se valer como documento. Foram estes dados que pulsionaram o início de um debate profícuo, onde vozes foram escutadas, também em multilinguagens, multi-olhares, fragmentos alinhavados pelo elenco, que acolhia cada fala.
A presença de camadas e mais camadas de projeções com dados estatísticos foi um recurso utilizado por Piscator em seu Teatro Político - uma das inspirações de Brecht para o Teatro Épico. Cumpre-se aqui a função de invadir o palco com o real - no sentido do único documento passível de o documentar, apesar de, como foi dito pela plateia, é preciso considerar o que está fora das estatísticas, pois o que não entrou na contagem é ainda mais alarmante.
Rejane Arruda.
18 de agosto de 2018.

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